Pedro H. G. Ferreira de Souza e Marcos D. Hecksher publicaram no Ipea, em 11/2025, uma nota técnica que documenta e decompõe as mudanças na distribuição de renda no Brasil entre 1995 e 2024, com foco no período recente. O texto organiza a leitura em duas escalas, a trajetória de longo prazo e o vaivém do curto prazo, especialmente na década de 2020. A mensagem central é que 2024 concentra os melhores resultados da série de pesquisas domiciliares, mas o caminho até ali não foi linear. Para entender o “porquê” das mudanças mais recentes, a nota separa o papel do mercado de trabalho e o papel das transferências assistenciais.
Esta nota técnica é uma boa porta de entrada para quem quer olhar pobreza e desigualdade sem ficar preso a um único ano, ou a uma única narrativa. O recorte vai de 1995 a 2024, com base em pesquisas domiciliares do IBGE, e a ambição é dupla: descrever a trajetória e explicar os motores do movimento recente.
No longo prazo, os autores apontam melhora expressiva nos indicadores captados pelas pesquisas domiciliares. Entre 1995 e 2024, a renda média cresceu cerca de 70%, o coeficiente de Gini recuou quase 18% e a taxa de extrema pobreza caiu de aproximadamente 25% para menos de 5%.
Ao mesmo tempo, o estudo insiste num ponto que costuma ser ignorado quando a discussão vira torcida. O progresso não foi contínuo, ele se concentrou em dois períodos mais claros, os anos entre 2003 e 2014 e a retomada pós-pandemia entre 2021 e 2024.
Para medir pobreza e extrema pobreza, a nota usa linhas internacionais em dólares por dia e apresenta equivalências em reais para 2024. A linha de extrema pobreza de US$ 3 por pessoa por dia (PPC 2021) é apresentada como equivalente a R$ 267 mensais por pessoa, e a linha de pobreza de US$ 8,30 por pessoa por dia como equivalente a R$ 738 mensais por pessoa.
Com esse critério, o texto registra 2024 como o melhor ponto da série para os indicadores apresentados. Em 2024, a PNAD Contínua apontaria 4,8% da população em domicílios abaixo de R$ 267 mensais per capita e 26,8% abaixo de R$ 738 mensais per capita, sempre dentro dessas linhas e conversões explicitadas na própria nota.
A parte mais útil para decisão de política pública é quando os autores tentam explicar o que mudou na distribuição de renda recente. Eles indicam que a melhora entre 2021 e 2024 foi impulsionada em igual medida pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela expansão das transferências assistenciais, com destaque para o ganho de efetividade dessas transferências no combate à pobreza e à desigualdade.
A nota detalha essa expansão com números de gasto e compara indicadores “antes e depois” das transferências, com um aviso importante: esse tipo de comparação é mais descritivo do que causal. Ainda assim, a leitura ajuda a enxergar por que o período recente se comporta diferente de fases anteriores.
Para usar o anexo com proveito, comece pela sinopse e pela introdução, porque ali estão o recorte, as fontes e as perguntas que guiam as decomposições. Depois, vá direto aos gráficos de pobreza e extrema pobreza no longo prazo e, em seguida, à seção sobre determinantes imediatos, que mostra como os resultados mudam quando entram as transferências assistenciais. Feche com o que a nota sugere sobre estabilidade e instabilidade, já que o texto foi escrito justamente para colocar o curto prazo dentro de uma perspectiva histórica mais segura.






